Artigo de Opinião

Um mês para uma violência secular

Maria Luísa
9 de outubro de 2026

O Agosto chega acompanhado do lilás e convida todos a pensarem sobre a violência contra a mulher e as formas de combatê-la, mas a escolha de um único mês para discutir um tema tão persistente também deve gerar reflexão. Afinal, como alertava Simone de Beauvoir, "… conquistar um direito não significa eliminar as ideias que um dia justificaram sua ausência." Nesse sentido, embora direitos tenham sido garantidos por lei, sua conquista não basta para eliminar a desigualdade de gênero, uma vez que discursos que relativizam essas lutas e naturalizam ideias utilizadas historicamente para restringir a autonomia feminina continuam sendo reproduzidos.

Essa questão pode ser relacionada ao pensamento da filósofa Simone de Beauvoir, que demonstra como a condição feminina é construída socialmente, portanto, não é resultado de uma suposta natureza feminina. Ao longo da história, direitos como a participação política das mulheres foram conquistados por meio de mobilizações e transformações sociais. Contudo, conquistar uma garantia jurídica não significa destruir automaticamente as estruturas sociais que, durante séculos, justificaram sua ausência. Como consequência, quando direitos femininos passam a ser tratados como exagero, privilégio, a própria desigualdade que esses direitos buscaram enfrentar pode voltar a se mascarar, parecer natural.

Além disso, essa dinâmica também aparece nos debates das redes sociais. A influenciadora Pietra Bertolazzi, por exemplo, recebeu críticas após declarações contrárias ao voto feminino e à distribuição gratuita de absorventes. O episódio evidencia como direitos vinculados à autonomia das mulheres ainda podem ser apresentados como dispensáveis. Mais do que uma opinião individual, esse tipo de discurso revela uma disputa sobre quem pode decidir quais direitos são legítimos e quais seriam "excessos".

Ademais, quando ideias que restringem a autonomia feminina são reproduzidas por uma mulher, podem adquirir uma aparência de legitimidade, embora continuem contribuindo para a relativização de conquistas históricas. Assim, o problema ultrapassa uma opinião individual, pois a circulação dessas ideias pode legitimar a relativização de direitos e dificultar o reconhecimento da vulnerabilidade feminina como consequência de uma desigualdade estrutural.

Diante disso, o Agosto Lilás é fundamental para dar visibilidade ao combate da violência de gênero, mas não pode ser compreendido como uma discussão limitada ao mês de agosto. Se direitos conquistados podem ser questionados quando a desigualdade continua sendo naturalizada, a conscientização também precisa ultrapassar o calendário. Combater a violência contra a mulher exige, portanto, não apenas leis que protejam seus direitos, mas uma sociedade capaz de reconhecer a autonomia feminina como um direito inegociável. Afinal, se um mês pode chamar atenção para o problema, somente uma conscientização contínua pode impedir que a desigualdade seja novamente naturalizada.

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